Matofobia. Assim é nomeado o medo da matemática, ou a aversão a ela. O conceito, que começou a ser difundido por Seymor Papert na década de 1980, diz respeito a sofrimentos psíquicos e sintomas físicos, como ansiedade, sudorese e dores de cabeça, ocasionados pela relação com conceitos matemáticos. Além de preocupar, o comportamento evidencia o grau de dificuldade de muitas pessoas nessa disciplina.

Nas salas de aula brasileiras, a defasagem em matemática não é recente, podendo ser observada em avaliações nacionais e internacionais. A Prova Brasil 2015, por exemplo, constatou que somente 39% dos alunos encerraram o 5o ano com conhecimento adequado em matemática; no 9° ano, esse percentual foi ainda menor, ficando em 14%.

Mais recente, o Relatório sobre o desenvolvimento mundial 2018: aprendizagem para realizar a promessa da educação, do Banco Mundial, trouxe uma alarmante análise sobre a situação do Brasil quanto ao ensino da matemática: embora as aptidões dos brasileiros de 15 anos tenham melhorado, se o sistema continuar a progredir no ritmo atual, os jovens levarão 75 anos para atingir a pontuação média em matemática dos países ricos.

Para reverter essa baixa proficiência, a psicopedagoga Ana Paula Carmagnani acredita que é preciso abandonar a postura tradicionalista com que se vem ensinando a matéria. “Um estudo recente do Banco Mundial apontou que milhões de crianças vão à escola e não aprendem. Atualmente, no Brasil, para cada turma do Ensino Básico que se forma, apenas um aluno segue para área de Exatas. Isso porque, ao longo da vida escolar, os alunos são ensinados a executar fórmulas e regras, mas não se aproximam de situações do dia a dia. Quando precisam, então, resolver um problema matemático real, não sabem qual caminho seguir. Ao analisar cursos técnicos e superiores, os que exigem habilidades matemáticas deixam de fazer parte das opções”, pontua ela, ainda destacando que mudanças na forma de ensino e aprendizagem são urgentes. “Do contrário, formaremos gerações de alunos incapazes de se tornar engenheiros, químicos, cientistas, desenvolvedores de software.”

A mudança deve começar na base

O investimento na formação matemática já deve começar no início da vida escolar, afirma Ana Paula. “Os conceitos aprendidos no Ensino Médio são estruturados sobre os conteúdos ensinados nos anos iniciais. Se a base dessa formação não for sólida o bastante, os conteúdos mais abstratos que se apresentam nos anos finais não farão nenhum sentido”, explica.

Um ensino mais individualizado, atividades mãos na massa, baseadas na solução de problemas e que valorizem a aprendizagem por descoberta podem ser alguns dos caminhos para alavancar o ensino. Além disso, é preciso implementar estratégias de modo que o ensino da matemática faça sentido para o aluno. “A matemática, assim como qualquer outro conceito, só fará sentido para o estudante se ele compreender ‘para quê’ precisa aprender esse conteúdo”, afirma Ana Paula.

Contudo, a psicopedagoga destaca que, no processo de ensino e aprendizagem de matemática, um dos maiores desafios a ser enfrentado é o fato de que diferentes crianças aprendem em ritmos diferentes. “Em áreas de estudo com fases de aprendizagem mais flexíveis, perder uma aula ou um conceito pode ser facilmente corrigido ou até ignorado. Mas, na matemática, se uma criança não entende, por exemplo, a noção de denominador comum, ela terá dificuldades para aprender aritmética de frações”, explica, apontando que essas são as falhas precoces que fazem surgir o temor de aprender a matemática, gerando ansiedade e preparando o cenário para uma fobia da disciplina ao longo da vida, o que normalmente acontece do Ensino Fundamental até o Médio.

Pendurar balões, decorar bolos, plantar canteiros de flores, conectar canos, encher tanques de água, misturar cores, selecionar meias ou dirigir carros. De acordo com Ana Paula, utilizar metáforas concretas para ensinar conceitos matemáticos abstratos também favorece o entendimento e a aprendizagem. “Isso é feito para desenvolver habilidades de generalização e estratégias de resolução de problemas para todos os propósitos. Quando utilizamos esse tipo de estratégia, buscamos melhorar a habilidade do aluno em decidir qual ferramenta matemática abstrata é aplicável a qual problema concreto. Ao mesmo tempo, aprimoramos suas habilidades de aplicar as ferramentas de forma correta para a solução de problemas reais. A melhor forma de desenvolver essas habilidades analí­ticas é engajando alunos em várias manifestações concretas e práticas dos temas da matemática abstrata”, diz a psicopedagoga.

Matific é parceiro estratégico do Virtual Educa.

Melhorando os índices

Aliar jogos educativos e tecnologia foi o recurso utilizado pela Escola Municipal Lázaro Sagrado para reverter a baixa proficiência em matemática. A instituição, localizada em um bairro carente do município de Colorado/PR, apresentava elevada defasagem de aprendizagem, especialmente nessa disciplina, bem como déficit no Ideb. A principal dificuldade dos alunos estava relacionada aos conceitos mais básicos da matemática, como soma, subtração e até mesmo contagem.

Dennis Szyller, diretor da Matific Brasil

Em 2017, a escola aderiu à utilização da plataforma de jogos da startup de tecnologia educacional Matific como uma de suas estratégias. A medida foi aplicada para alunos do 1° ao 5° ano. A cada semana, durante duas horas, as turmas participavam da atividade, realizada no laboratório de informática. “Com mais de 1.600 jogos interativos, acreditamos que a matemática é mais bem apreendida por meio de atividades guiadas, mãos na massa, de interação e aprendizagem por descoberta. Assim, as atividades da nossa plataforma são elaboradas de forma a permitir que o aluno analise e compreenda um problema real e escolha a melhor estratégia para resolver a situação apresentada”, afirma o diretor da Matific, Dennis Szyller.

Cada episódio, como são chamadas as principais atividades da Matific, dura de 5 a 15 minu­tos e busca abordar um conceito matemático, habilidade ou ideia simples, bem definidos e orientados ao currículo. A plataforma permite que as ações da criança sejam continuamente monitoradas e acumula dados sobre as habi­ lidades dela na evolução da aprendizagem da matemática. “Considerando que cada criança aprende de uma forma e em um ritmo diferente, o professor pode selecionar e atribuir atividades personalizadas a cada aluno, atendendo a suas necessidades pedagógicas e permitindo seu desenvolvimento pleno”, afirma Szyller.

Os resultados na Escola Lázaro Sagrado foram tão significativos que surpreenderam até mesmo a equipe escolar envolvida com a implantação do projeto: a escola, que em 2016 tinha tido o índice de reprovação de 31,8%, no ano passado conseguiu reduzi­-lo para 4%. O nível de autonomia dos alunos também melhorou.

Coordenadora pedagógica da Secretaria de Educação de Colorado/PR, Fernanda Souza acompanhou junto à diretora e à pedagoga da escola a implantação do projeto. Ela destaca os principais pontos que foi possível trabalhar com os jogos para o ensino de matemática. “A plataforma se destacou como uma forma de o professor utilizar as tecnologias para falar a língua dos alunos. Isso além de ser um suporte muito eficaz para o professor, uma vez que os jogos também ajudam na transmissão dos conceitos matemáticos de modo mais eficaz e envolvente. A tecnologia trouxe inúmeras formas de o professor explorar e perceber o que o aluno está conseguindo aprender ou não, identificando quem é o estudante que está com mais dificuldade, bem como com mais facilidade. Assim, o docente tem mais condições para buscar novas estratégias ou até mesmo preparar uma aula diferenciada”, afirma.

Fernanda ainda avalia o uso de jogos educativos aliados a recursos tecnológicos para o ensino de matemática. “A tecnologia é instrumento capaz de ampliar a metodologia e auxiliar o professor, ajudando-o a ir mais além. Ele não precisa ficar preso naquele cotidiano a que estávamos acostumados e que já não traz mais bons resultados.”